Textos Reflexivos

Dia de Finados – Lidando com perdas, morte e luto

Fonte: http://mosaico21.com.br/a-individualidade-do-tempo/

Por Luiza Helena Raittz Cavallet

“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”  Antoine de Saint-Exupery

Dia 02 de novembro é marcado pelo Dia de Finados, um dos importantes rituais religiosos do catolicismo. O hábito de rezar pelos mortos já se fazia presente no cristianismo desde seus primórdios, porém foi Odilo (ou Odilon) de Cluny quem, no ano de 998, estabeleceu a obrigatoriedade do rito e uma data específica para ele. A data se popularizou no mundo ocidental até os tempos atuais, em que é comum neste dia visitar os cemitérios, levar flores, velas e  rezar nos locais onde foram sepultadas pessoas amadas (FERNANDES, 2018).

Em minha prática como Psicóloga Hospitalar, tem sido comum que os pacientes e seus familiares me questionem em relação aos rituais em torno da morte e do luto. Por exemplo, me perguntam se devem ou não contar a uma pessoa idosa e/ou doente que um familiar faleceu; se é correto que crianças frequentem cemitérios; se no caso de uma perda muito significativa e que está demorando a cicatrizar é melhor seguir com visitas ao cemitério e outros rituais ou procurar evitar lembranças e direcionar a atenção a outros âmbitos da vida.

Nestas situações, sempre me lembro dos valiosos ensinamentos de Maria Júlia Kovács. A autora dos livros “Morte e desenvolvimento humano” e “Educação para a morte” dedicou boa parte de sua carreira às reflexões sobre o modo como as diferentes culturas lidam com a morte. Segundo Kovács (1992), a cultura ocidental é marcada, desde o século XX, pelo temor e pelas tentativas de ocultamento. A morte é vista como algo a ser evitado a todo custo e não como parte do desenvolvimento humano, como condição inevitável do ser humano e que demanda, portanto, preparação (tal qual é vista na cultura oriental).

 

dia de finados psiconefrologia psicologia (2)

Fonte: https://entrelacosdocoracao.com.br/2010/11/morte-e-vida/

Com o avanço das ciências da saúde na cultura ocidental, o local da morte deixa de ser o ambiente domiciliar e passa a ser o hospital. Os esforços para o prolongamento da vida vêm acompanhados da frustração e do sentimento de impotência e insucesso quando o momento da morte chega. A morte deixa de ser considerada um fenômeno natural da vida humana e passa a ocupar o lugar simbólico do fracasso e do erro. Essa rede de significações dá espaço ao que Kovács chama de “conspiração do silêncio”: o tema é banido/interditado da comunicação cotidiana. É comum, diante deste contexto, que as pessoas tenham dúvidas sobre como lidar com a morte e sobre como abordar o tema em diferentes situações. Faltam espaços de diálogo e elaboração psíquica sobre a morte. Dai a importância de datas como o dia de finados, que possibilita o contato com a morte, com os sentimentos, com a ritualização que coloca em movimento o processo de luto.

Kovács (2005) propõe práticas de “educação para a morte”, ou seja, a construção de espaços para o diálogo e contato com tema de modo a promover crescimento pessoal. Segundo a autora, o contato com a finitude promove questionamentos e pode ampliar o autoconhecimento, representando possibilidade de desenvolvimento. Além disso, a reflexão contribui para a preparação para o momento da morte (que chegará para todos nós) e a busca de sentidos para o tempo de vida.

Kovács (2005) desenvolveu junto ao Laboratório de estudos sobre a morte na USP diversos materiais (bibliografias, filmes, vídeos) para instrumentalizar a abordagem do tema em diferentes contextos: com crianças e adolescentes passando por perdas; para abordar o suicídio; em postos de saúde, escolas, universidades etc. A ideia é promover conhecimentos e reflexões sobre a morte em espaços cotidianos, possibilitando o contato e elaboração dos próprios sentimentos.

Aos profissionais de saúde, é imprescindível a reflexão sobre a temática da morte e sobre os próprios sentimentos frente a esta. Quando o foco do profissional deixa de ser a “cura” pura e simples (o evitar a morte) e passa a ser o cuidado (a qualidade de vida do ser humano) é possível a aceitação da morte como condição humana e passa-se a dar ênfase à pessoa e não à doença (KOVÁCS, 2005).

“Se você tratar uma doença, você ganha ou perde. Se você tratar uma pessoa, eu garanto, você vai ganhar, não importa o resultado…”  Patch Adams

Referências

FERNANDES, Cláudio. “02 de Novembro – Dia de Finados”; Brasil Escola. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/datas-comemorativas/dia-de-finados.htm>. Acesso em 31 de outubro de 2018.

KOVÁCS, M. J.  Atitudes diante da morte: visão histórica, social e cultural. In: KOVÁCS, M. J. (coord.) Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do psicólogo, 1992.

KOVACS, M. J. Educação para a morte. Psicol. cienc. prof. [online], vol.25, n.3, pp. 484-497, 2005.

  1. Fabiana

    Na maioria das vezes quando alguém toca no assunto fugimos na intenção de não pensar neste momento que é tão dolorido para todos nós. Mas o preparo e entendimento nos ajuda a sofrer menos, ou de forma mais madura para superar as dores e aquele vazio que bate dentro de nós. Parabéns pela abordagem!

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